30/11/2005 20:01
A MARMITA
(Pedro Ivo)
Em sua marmita
não leva o operário
qualquer metafísica.
Leva peixe frito,
arroz e feijão.
Dentro dela tudo
tem lugar marcado.
Tudo é limitado
e nada é infinito.
A caneca d'água
tem espaço apenas
para a sua sede.
E a marmita é igual
à boca do estômago,
feita sob medida
para a sua fome.
E quando termina
sua refeição,
ele ainda cata
todas as migalhas,
todo esse farelo
de um pão que suasse
durante o trabalho.
Tudo quanto ganha
o operário aplica
como um capital
em sua marmita.
E o que ele não ganha
embora trabalhe
é outro capital
que também investe:
palavra que diz
em seu sindicato,
frase que se escreve
no muro da fábrica,
visão do futuro
que nasce em seus olhos
que só com fumaça
se enchem de lágrimas.
Em sua marmita
não leva o operário
o caviar de
qualquer metafísica.
E sendo ele o mais
exato dos homens
tudo nele é físico
e material,
tem seu nome e forma,
seu peso e volume,
pode-se pegar.
Seu amor tem saia
pêlos e mucosas
e, fecundo, faz
novos operários.
As coisas se medem
pelo seu tamanho:
sono, mesa, trave.
No trem ou no bonde
nenhum operário
pode se espalhar
sem fazer esforço.
É como no mundo:
tem que empurrar.
Vasilhame cheio
de matéria justa,
sua vida é exata
como uma marmita.
Nela cabe apenas
toda a sua vida.
E não cabe a morte
que esta não existe,
não sendo manual,
não sendo uma peça
de recauchutar.
(Artigo infinito,
sem ferro e sem aço,
qualquer um a embrulha
sem usar barbante
ou papel almaço.)
Fabril e imanente
o operário vive
do que sabe e faz
e, sendo vivente,
respira o que vê.
O tempo que o suja
de óleo e fuligem
é o mesmo que o lava,
tempo feito de água
aberta na tarde
e não de relógio.
E a própria marmita
também é lavada.
E quando ele a leva
de volta pra casa
ela, metal, cheira
menos a comida
do que a operário.
enviada por Cloé
13/08/2005 18:52
DESPEDIDA DE UM GÊNIO
Se por um instante Deus esquecesse de que
sou uma marionete de pano e me presenteasse
com mais um pouco de vida, possivelmente não
diria tudo o que penso, mas definitivamente
pensaria em tudo o que digo.
Daria valor às pequenas coisas, não pelo que
valem, mas sim, pelo que significam.
Dormiria pouco, sonharia mais, entendendo que
por cada minuto que fechamos os olhos,
perdemos sessenta segundos de luz.
Andaria quando os demais se deteriam,
despertaria quando os demais dormiriam.
Escutaria quando os demais falariam, e como iria
saborear um delicioso sorvete de chocolate!
Se Deus me concedesse mais um pouco de vida,
vestir-me-ia simplesmente.
Deitaria de bruços ao sol, deixando descoberto,
não somente meu corpo, senão minha alma.
Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria
meu horror ao frio, e esperaria que saísse o sol.
Pintaria como em um sonho de Van Gogh,
sobre as estrelas, um poema de
Benedetti, e uma canção de Serrat.
Seria a serenata que ofereceria à lua.
Regaria com minhas lágrimas as rosas, para
sentir a dor de seus espinhos, e o beijo
vermelho de suas pétalas.
Deus meu, se eu tivesse um pouco mais de vida...
Não deixaria passar um só dia sem dizer a toda
gente, que as quero muito.
Viveria apaixonado pelo amor.
Aos homens, provaria o quanto estão equivocados
ao pensar que deixam de apaixonar-se quando
envelhecem, sem saber que envelhecem
quando deixam de apaixonar-se.
A uma criança, daria asas, mas deixaria que
ela sozinha aprendesse a voar.
Aos idosos, ensinaria que a morte não chega com
a velhice, mas sim, com o esquecimento.
Tantas coisas aprendi com vocês homens...
Aprendi que quando um recém-nascido aperta
com seu pequeno punho, pela primeira vez, o dedo
de seu pai, o tem conquistado para sempre.
Aprendi que um homem somente tem direito de
olhar outro de cima para baixo, quando for
ajudá-lo a levantar-se.
Sempre diga o que sentes e faça o que pensas.
Se soubesse que hoje seria a última vez que te
veria dormir, te abraçaria fortemente e rezaria ao
Senhor para poder ser o guardião de tua alma.
Se soubesse que esta seria a última vez que te veria
sair pela porta, te daria um abraço, um beijo e te
chamaria novamente para dar-te mais.
Se soubesse que esta foi a última vez que
escutaria tua voz, gravaria cada uma de tuas
palavras para poder ouvi-las, uma à uma,
outra vez, indefinidamente.
Se soubesse que estes são os últimos minutos
que te veria, diria: te quero, e assumiria
completamente o que já sabes.
Sempre há um amanhã e a vida nos dá mais uma
oportunidade para fazermos as coisas bem, mas
se não me engano, hoje é tudo que nos resta,
então gostaria de dizer-te o quanto te quero
e que nunca te esquecerei.
O amanhã é incerto.
Velho ou jovem, ninguém tem certeza se o viverá.
Hoje pode ser a última vez que você
verá as pessoas que ama.
Por isso não espere mais para demonstrar amor.
Faça-o hoje, já que o amanhã nunca chega.
Com certeza lamentarás o dia que não tomastes
tempo para um sorriso, um abraço, um beijo e que
estivestes muito ocupado para conceder
a quem amas, um último desejo.
Mantém a todos que amas perto de ti.
Diga-lhes ao ouvido, o quanto precisa deles, o
quanto os quer e trate-os bem.
Tome tempo para dizer-lhes: sinto muito,
perdoe-me, obrigado, e todas as palavras
de amor que você conhece.
Ninguém lembrará de você por seus
pensamentos secretos.
Pede ao Senhor a força e a sabedoria
para expressá-los.
Demonstra a teus amigos quanto você
se importa com eles.
Lembre-se sempre:
Viva hoje intensamente!
Coloque em prática os seus sonhos.
O momento é este!
(Gabriel García Marquez)
enviada por Cloé
14/07/2005 21:40
Sobre os sentimentos nascidos na internet
ESTOU APAIXONADA... E AGORA?
Começa-se sem muitas pretensões, só teclando, só para matar o tempo, num dia de domingo pachorrento, em que não se tem nada de muito interessante prá fazer. Inicia-se com de onde teclas?, e depois se sucede um questionário com perguntas básicas, do tipo que não se quer calar, a saber: do gosta de fazer nas horas de folga, que autores prefere, passando-se por se perguntar o verdadeiro nome, já que o nick é muito impessoal, culminando por se pedir o endereço, depois de se haver trocado fotos.
A empatia do primeiro contato às vezes chega a ser tão pungente que situações há em que a pessoa na mesma noite, chega a sonhar com a outra, sonhos intensos, indizíveis, inexplicáveis que beiram o surrealismo, passando a atordoar as idéias. E desperta-se com a roupa encharcada de suor, com taquicardia, prisioneiro de uma ânsia que não se pode aquietar.
Num determinado dia, a pessoa se apercebe de que embora seu dia tenha sido cheio, a lembrança da pessoa esteve presente todo o tempo, e se anseia pelo término do expediente porque se precisa ir correndo para casa, para ligar o computador, e acessar a Internet, porque precisa desesperadamente falar com aquela pessoa, já que ela faz parte de seus dias, de seu universo, enfim, de sua vida. E quanto seu ícone, acompanhado de seu nick se encontra estampado no monitor, seu coração bate mais forte, sua alma vibra!
Agrava-se o processo de apego se a essa convivência se agregam as ferramentas de áudio e vídeo, em que se pode ouvir e ver a pessoa em tempo real. Têm-se a pessoa a trinta centímetros de sua vista, ouve-se suas confidências; do outro lado, faz-se outras tantas, e inadvertidamente você se dá conta de que ainda é capaz de se comover, de que ainda é capaz de sentir desejos que imaginava mortos. Você anseia pela presença da pessoa. A conclusão inevitável a que se chega é que se está irremediavelmente apaixonada por uma pessoa distante, com o oceano Atlântico a separá-los, e que não a pode tocar. E um combate interno se trava em seu íntimo, e você reluta em acreditar que isso esteja acontecendo, rejeita categoricamente essa situação.
Primeiro você diz para si mesma que é amizade, amizade forte, amizade íntima, nunca um amor verdadeiro, porque lhe aterroriza a idéia de estar apaixonada por uma pessoa que se conhece apenas parcialmente. O que você conhece dela é apenas o que ela diz sobre si mesma, não se lhe conhece a família, nem os amigos, nem a forma como a pessoa se relaciona com o mundo. Você é uma pessoa bem informada, assiste a todos os noticiários televisivos e sabe dos riscos a que se está exposto diante de um relacionamento pela Internet, porém a despeito de todos essas objeções, você não consegue mais viver sem relacionar- se com ela.
Impossível admitir que aquela pessoa tão sensível e afetuosa com quem você conversa já há tanto tempo seja capaz de um golpe baixo, quanto mais brincar com seus sentimentos. Inadvertidamente você pergunta para si mesmo, o que torna um amor real mais verdadeiro do que um virtual? Em que pontos o primeiro sobrepuja o segundo? Quantas pessoas convivem com outras diariamente, exaustivamente, e ao final concluem que aquela pessoa com quem partilhava a vida era um completo estranho?
Mas o que vem a ser amor verdadeiro?
Se uma pessoa sente falta de outra, se faz parte de seus dias, se consegue falar com ela particularidades que não teria coragem de dizer a nenhuma outra, se sua voz fica-lhe na memória dos ouvidos, se sua companhia lhe compraz tão intimamente, então que outro nome se pode dar a isso? E pior, se ela não consegue imaginar-se se relacionando com outra porque aquela lhe supre as carências e exigências da vida! Inexoravelmente chega-se a conclusão inequívoca de que se está num mato sem cachorro, ou num beco sem saída. E agora, o que é que a vida vai fazer de mim?...É a pergunta a que de ordinário se faz de si para si.
Parte-se então para um equacionamento racional do problema, e você argumenta para si mesma que não é razoável estar amando uma pessoa a quem não pode tocar, nem lhe aperceber do cheiro, e nem sequer checar as informações que ela lhe passa. Então, depois de muito racionalizar você delibera que vai se afastar daquela pessoa, que não vai mais acessar o site em que a mesma é encontrada, que não vai mais ligar, e nem atender as chamadas, e fica firme neste intento, porque não é razoável persistir nesse tresvario. Isso, na véspera, porque no dia seguinte a saudade de novo lhe bate à porta e você acaba por ter uma recaída inesperada, e uma compulsão lhe assalta, e como um vício feroz, você precisa estar de novo com a pessoa, senão você enlouquece, porque a essa altura ela já está entranhada em sua alma.
(Continua no próximo capítulo)
enviada por Cloé
04/07/2005 00:19
As estações
Vens, não vens. Saio à porta
Olho a rua que se estreita
Sinto a tua demora...
As flores nascem
As folhas caem
A chuva leva os teus passos na calçada
O calor no meu peito mora.
(Nossa lavra)
enviada por Cloé
04/07/2005 00:11
Sobre a cara metade...
A gente passa a vida inteira sendo catequizada no sentido de que deve se casar com alguém um dia. Mas os dias se vão sucedendo, depois os anos e nada! Tenho refletido muito sobre isso e acabei por entender que seria inadmissível que todos os habitantes do planeta viessem a encontrar sua cara metade. Como? Com tantas diferenças culturais, línguas, dialetos, raças, educação, formas de ver a vida, seria de se espantar que cada um de nós encontrasse o seu bem amado. E outra, será que nossa cara metade necessariamente habita o mesmo país que o nosso? Por quê não se pensar que talvez ele seja de um outro continente, ou talvez de um outro tempo? Talvez ele tivesse existido no passado, ou quem sabe habitará ainda no futuro.
O que é certo é que nascemos sozinhos e morreremos sozinhos um dia, (que espero esteja bem distante!), portanto urge que mudemos de forma de pensar. Convém que cada um de nós busque em si mesmo uma forma de vida auto-suficiente que tenha o condão de bastar-se a si mesma. A resposta para a questão é alimentação constante de vida interior, até à exaustão, de maneira que não sintamos falta do outro. Precisamos entender felicidade dissociada da idéia de dupla; podemos ser felizes com outras formas de amar. O Pessoa magistralmente escreveu num de seus versos de forma clara que "toda forma de amor vale à pena se a alma não é pequena". Então, sejamos grandes! Caminhemos com o propósito deliberado de obter uma alma grandiosa. Escrevo isso, depois de refletir sobre o amor, tratado no Banquete, de Platão.
enviada por Cloé
24/06/2005 13:52

enviada por Cloé
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